27 de ago de 2012

Fazer voar.

Meu sonho desde criança era voar. Sonho gigante e pequeno para alguns. Já tentei batendo os braços, pulando do alto, pensando, bebendo goles e conversando. Em vão. E eis que descubro Mario Quintana, e ele me ensinou a voar.

O casaco azul.

Era grande e pequeno. Macio e áspero. Apenas um casaco. Mas quando José o vestia, se sentia protegida do mundo, dos medos e da solidão. Naquela noite, preparando o jantar, José resolveu passar o rosto na textura do casaco que por tanto o acompanhara. Com a textura veio o cheiro, que já não era tão macio assim. Colou o nariz no casaco e lembrou-se de todas as imagens e cores do passado agora aspiradas pelo olfato. Despiu-se, já não queria revisitar. Vestido de uma camiseta velha e desbotada, e sem o casaco azul, sentou-se na cadeira vermelha e comeu tranquilamente seu prato de macarrão. Respirou aliviado.

22 de ago de 2010

Dúvida.

Por que quanto menos me amas, mais eu te quero?
Por que quanto mais eu te quero, menos me amas?
Por que você apareceu para mim?
E por que eu desapareci?

29 de jul de 2010

Tum Tum.

Marina casou-se com Arlindo, o homem com quem namorou desde menina. Primeiro baile, beijo e frio na barriga. Montaram a casa: flores artificiais em cima da toalha rendada posta para servir o café fresco de cada dia. Engravidaram-se, sem nem perceberem como nem onde. Apenas com a certeza de que a criança seria não menos que o fruto de um amor cotidiano e consolidado. Sete semanas e um ultrassom. O médico acusou que impossível seria dizer o sexo da criança, pois naquele momento nem membros nem tronco estavam formados. O que acusava no exame era um coração pulsante, que não parava de palpitar. O médico exclamou: seu filho, até agora, é um coração batendo. Marina sorriu docemente e deixou cair a primeira lágrima de sua maternidade.

11 de jul de 2010

Injustiça.

E quem é que inventou a saudade?
Certamente algum compositor, antipático, de bossa nova.
Em busca de inspiração.
E meu peito que paga o preço.

9 de jul de 2010

Cortina Vermelha.

No palco entrava Maria. Na platéia 13 pessoas assistiam.
Do palco ela só via o pai. Da platéia o pai só a via.
O coração dela disparado. O pai com uma certa euforia.
O texto falou bem falado. E ele suspirou de alegria.
Percebeu que tinha errado. José muita palma batia.
Chorou e saiu num galope. O homem nem percebia.
Maria não quis ser atriz. Não era o que ela queria.

Pergunta.

Me perguntaram se choro de emoção.
Eu choro.
Se choro de tristeza.
Eu choro.
Se choro de angústia.
Eu choro.
Se choro por amor.
Eu choro.
Se choro de tensão.
Eu choro.

Me perguntaram se eu já amei.
Não sei.